LETALIDADE POLICIAL E (É) RACISMO ESTRUTURAL (!)?

No dia 01/07/2026 a Record News convidou o presidente do Instituto Brasileiro de Segurança Pública (IBSP) a entrevista com a Jornalista Sônia Souza no programa Conexão Record News, para discutir a pesquisa  Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã, apresentado pela Rede de Observatórios da Segurança na forma de sua sétima edição anual, como estudo que monitora dados de letalidade policial fornecidos pelas secretarias de segurança de nove estados — Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo. (Clique para assistir à entrevista).

Em 2025, nove estados brasileiros registraram, juntos, 4.330 mortes em decorrência de ações policiais, alta de 6,4% na comparação com 2024. Quase nove em cada dez desses registros – 86,3% ou 3.104 mortes –, envolveram vítimas negras (pretas ou pardas). 

Para Azor Lopes da Silva Júnior, o confronto entre os dados do IBGE, do Atlas da Violência, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e da literatura científica demonstra que a elevada proporção de jovens negros entre as vítimas da letalidade policial constitui um dado estatístico objetivo, porém esse perfil reproduz, em grande medida, o mesmo padrão observado entre as vítimas de homicídios em geral no Brasil: homens, jovens, pretos ou pardos e residentes em territórios marcados por maior vulnerabilidade socioeconômica e elevada incidência de violência.

Como apresentados por  Judea Pearl e Dana Mackenzie em The Book of Why: The New Science of Cause and Effect (2018), no campo dos fundamentos da inferência causal, compreender relações de causa e efeito é essencial para a ciência e tomada de decisões: “Data are profoundly dumb” (“Os dados, por si sós, são profundamente incapazes de explicar relações causais.”), daí porque os indicadores disponíveis evidenciam uma forte associação entre raça e vitimização letal, mas, sob a perspectiva da criminologia empírica, não permitem atribuir causalidade exclusiva à variável racial, pois esta se encontra estreitamente correlacionada com fatores como pobreza, desigualdade, segregação territorial, exposição diferencial ao crime organizado e maior intensidade da atuação policial nesses espaços.

Desse modo, qualquer conclusão sobre as causas da letalidade policial exige modelos analíticos multivariados capazes de isolar o efeito independente de cada uma dessas variáveis, evitando que correlações estatísticas sejam interpretadas, prematuramente, como relações causais. Confira o Quadro abaixo:

Como observou Karl Popper: “Science must begin with myths, and with the criticism of myths.” (“A ciência deve começar pelas hipóteses, mas progride mediante sua crítica.”; POPPER, Karl R. Conjectures and Refutations: The Growth of Scientific Knowledge. London: Routledge, 1963.), assim, a interpretação dos indicadores de letalidade policial deve respeitar os limites impostos pelos próprios dados.

Prof. Dr. Azor Lopes da Silva Júnior
Presidente do IBSP

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