Brazil Crackdown Reveals New Tren de Aragua Playbook
Entrevista com o Associado IBSP Francisco Xavier Medeiros de Castro
OPENAI. ChatGPT (modelo GPT-5.5). Tradução assistida por inteligência artificial. Disponível em: https://chatgpt.com/. Acesso em: 2 ago. 2026.
Uma recente operação policial no norte do Brasil revelou como a facção de origem venezuelana Tren de Aragua estabeleceu presença no país e adaptou seu modelo de expansão criminosa por meio de alianças.
A polícia do estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela, desmantelou, em junho, uma célula do Tren de Aragua que atuava no Brasil. Segundo as investigações, o grupo utilizava o estado como rota para o tráfico de armas destinadas a outras regiões do país e mantinha parcerias com organizações criminosas locais para lavar dinheiro proveniente do garimpo ilegal, do tráfico de drogas e de outras atividades ilícitas.
Também foram realizadas apreensões no Amazonas — outro estado da região Norte —, bem como em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná, nas regiões Sudeste e Sul do país.
As autoridades prenderam 13 pessoas e determinaram o bloqueio de R$ 429 milhões (cerca de US$ 82 milhões) em contas bancárias e ativos financeiros vinculados a suspeitos de integrar a rede criminosa.
As evidências reunidas durante a investigação indicam que o Tren de Aragua atuava em parceria com o Comando Vermelho (CV), a segunda maior facção criminosa do Brasil, recentemente classificada pelos Estados Unidos como organização terrorista.
Essa aliança representa uma estratégia distinta para a facção venezuelana: em vez de buscar se estabelecer como o grupo criminoso dominante, como fez em outros países, o Tren de Aragua parece estar formando alianças com facções locais no Brasil para ampliar seu alcance e aumentar seus lucros.
Tren de Aragua in Brazil
O desmantelamento da rede do Tren de Aragua no Brasil demonstra como a organização conseguiu estabelecer e expandir sua presença no país nos últimos anos.
Segundo as investigações, o Tren de Aragua fornecia armas adquiridas nos Estados Unidos, Colômbia e Venezuela para integrantes do Comando Vermelho (CV) nos estados do Amazonas e do Rio de Janeiro, frequentemente em troca de cocaína, afirmou o coronel da Polícia Militar Francisco Xavier. Posteriormente, a facção venezuelana revendia a cocaína em Roraima, declarou o oficial à InSight Crime.
Em outras operações, as armas eram pagas em dinheiro. Para ocultar a origem ilícita desses recursos, o Tren de Aragua estruturou um esquema de lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada. De acordo com o coronel Xavier, a organização utilizava a mesma rede responsável por criar empresas de fachada para o Comando Vermelho.

Esses colaboradores atuam como intermediários (brokers), sem vínculo permanente com uma organização criminosa específica. “Sempre que há um grande operador financeiro do crime, ele presta serviços para mais de um cliente. Ele está no mercado e oferece seus serviços a quem os contrata”, afirmou Anchieta Nery, diretor de Operações Integradas e de Inteligência da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), em entrevista à InSight Crime.
A maior presença do Tren de Aragua no Brasil concentra-se em Roraima, estado que faz fronteira com o estado de Bolívar, no sul da Venezuela. Bolívar há muito tempo é uma área de influência do Sindicato de Las Claritas, organização criminosa ligada ao garimpo ilegal e que mantém estreitas relações com o Tren de Aragua por intermédio de seu cofundador, Yohan José Romero, conhecido pelo codinome “Johan Petrica”.
A pequena cidade de Las Claritas, localizada no município de Sifontes, transformou-se em um verdadeiro refúgio do Tren de Aragua após a intervenção do Estado venezuelano que desalojou a organização de sua principal base de operações na prisão de Tocorón, no estado de Aragua, em 2023.
Segundo a Polícia de Roraima, o Tren de Aragua vem expandindo sua atuação no Brasil desde 2018, aproveitando os sucessivos fluxos migratórios de venezuelanos que ingressam no país para estabelecer uma base de apoio e consolidar sua presença em novos territórios.
Atualmente, as atividades de lavagem de dinheiro da organização já alcançam os estados das regiões Sul e Sudeste do Brasil.
A New Modus Operandi
Em outras partes da América Latina, o modelo de expansão do Tren de Aragua consistiu na criação de células próprias e na tomada de controle de economias criminosas locais por meio do uso de violência extrema e da exploração de migrantes venezuelanos. No Brasil, porém, a organização adotou uma estratégia diferente.
Com a intensificação da crise migratória venezuelana a partir de 2015, milhões de pessoas deixaram seu país, sendo a maioria acolhida por Colômbia, Chile e Peru. O Tren de Aragua acompanhou esse fluxo migratório, obtendo inicialmente lucros com o contrabando e o tráfico de pessoas. No Chile e no Peru, a organização encontrou mercados ilícitos propícios à exploração, como a extorsão, a exploração sexual e o tráfico varejista de drogas, em um contexto de pouca concorrência criminosa, forças de segurança despreparadas e grandes comunidades de venezuelanos vivendo em situação de vulnerabilidade jurídica, o que facilitava sua exploração.
Em um primeiro momento, a expansão do Tren de Aragua no Brasil pareceu seguir padrão semelhante, com sua presença concentrada na região de fronteira e acompanhando as rotas migratórias. Roraima oferecia uma plataforma financeira para a lavagem de dinheiro, além de servir como corredor para o contrabando de mercadorias e de minerais extraídos ilegalmente na Venezuela, atividade também desenvolvida por outras organizações criminosas.
Entretanto, ao contrário do que ocorreu no Chile e no Peru, onde novas células do Tren de Aragua se multiplicaram rapidamente, sua expansão armada no Brasil foi limitada — assim como ocorreu em Medellín, na Colômbia, cujo submundo do crime já é densamente ocupado — pela presença de organizações criminosas nacionais muito mais estruturadas e poderosas, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Em Roraima, o território permanece predominantemente sob influência do PCC, a maior e mais poderosa facção criminosa do Brasil.
Diante desse cenário, o Tren de Aragua parece ter optado por atuar no Brasil principalmente como prestador de serviços para o crime organizado, utilizando sua aliança com o Comando Vermelho para construir redes de apoio que ampliam suas atividades no país, sem necessidade de investir na formação de células armadas próprias, exercer controle territorial ou monopolizar mercados ilícitos.
“Existe uma simbiose de identidade entre o Tren de Aragua e o Comando Vermelho; integrantes da facção venezuelana chegam a solicitar permanência nas mesmas alas prisionais ocupadas por membros do Comando Vermelho”, afirmou Wesley Costa de Oliveira, delegado da Polícia Civil de Roraima responsável pela investigação, em entrevista à InSight Crime.
A aliança entre o Comando Vermelho e o Tren de Aragua contribuiu para ampliar a capacidade de atuação de ambas as organizações. Segundo o coronel Francisco Xavier, o Comando Vermelho vem fortalecendo sua presença na Região Norte graças ao fornecimento de armas e ao apoio logístico da facção venezuelana. Dados do Anuário 2025 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) indicam que a presença do Comando Vermelho na Amazônia mais do que dobrou desde 2023.
“Estamos observando integrantes do PCC ‘rasgando a camisa’ (desertando da facção) para ingressar no Comando Vermelho. Embora o PCC ainda seja a força dominante em Roraima, o Comando Vermelho vem conquistando espaço e prestígio de forma significativa em razão do apoio venezuelano”, concluiu o coronel Francisco Xavier.
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